terça-feira, 7 de junho de 2011

Um tempo

Como os amigos já perceberam, dei um tempo na minha produção de textos neste espaço. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e outras ferramentas de expressão, especialmente o Twitter, reduziram o tempo. Eu, que ainda questiono o Twitter pelo pouco espaço para consolidar um pensamento, acabei engolido pela coisa. Não que eu seja um doido pelo Twitter e o acesse de forma ininterrupta. Não, não sou dessa turma.

Sou mais um observador das manifestações tuiteiras do que, propriamente, um produtor de conteúdo tuítico. De qualquer maneira, peço desculpas aos leitores pelo distanciamento recente. Em breve, voltarei a escrever. Grande abraço.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Silêncio

Depois de algum tempo, volto a escrever no blog. Alguns motivos me levam a reduzir minha produção de textos neste espaço: falta de tempo, falta de motivação, cansaço, uma série de atividades importantes do ponto de vista profissional, outras tantas no âmbito pessoal e falta de inspiração são algumas das razões que me afastaram um pouco do meu próprio blog. Mas há um ponto que, acredito, tenha sido determinante para isso: o excesso de opinião.

Tenho refletido bastante sobre o quanto os indivíduos opinam nesses tempos digitais e com espaços generosos para a manifestação pessoal. Isso é bom. No entanto, como quase tudo na vida, o excesso cansa. É isso o que tenho visto atualmente: o planeta inteiro jogando suas opiniões ao vento. Qual o valor dessas opiniões, afinal?

Quando decidi criar um blog, meu objetivo era – e ainda é – o de manter textos meus em algum lugar. Uma espécie de depósito de textos, coisa minha, coisa pessoal. Não tinha – e ainda não tenho – o sonho de ser lido por milhares de pessoas. Os que leem meu blog o fazem, em sua maioria, porque, de algum modo, mantêm relacionamento comigo. Colegas, amigos, familiares. Até porque, não creio que minha opinião seja lá muito importante. É, apenas, um parecer sobre algo.

O que vejo nos blogs e no twitter, especialmente, é uma verdadeira banalização da opinião. As manifestações e informações, em sua maioria, são geniais e fundamentais para o relacionamento humano, como “vou tomar banho”; “que programa é esse?”; “odeio acordar cedo”; “hoje tem prova. Não sei nada”; “Foi o melhor show que vi na vida”. Pergunto: por que as pessoas têm a necessidade de dizer coisas como essas? Por que precisam contar aos outros que tomarão banho ou que não gostam de acordar cedo? Por que as pessoas acreditam que essas banalidades tolas do cotidiano têm relevância para os outros?

Eu tenho conta no Twitter. Mas não passo por lá já faz algum tempo. Tenho quase 200 seguidores, acreditem. Mas por que eles me seguem? Por certo, pelo mesmo motivo que levam as pessoas a visitar o meu blog. São amigos, parentes, colegas de trabalho, alunos. Claro, eu não chego ao ridículo de dizer no Twitter que vou ao banheiro ou que estou de bom humor ou que detesto acordar cedo. Mas tenho consciência de que não escrevo nada de muito importante para ter 200 almas lendo o que digo. Também cheguei à conclusão de que, mesmo tentando escrever algo interessante em 140 caracteres, estava seguindo a mesma trilha da verborragia opinativa de todo mundo. Então, dei um tempo.

Cansei de ler opiniões sobre o dia, a noite, o programa de TV, a temperatura, o time, a aula, o texto, o jornal, a revista, a partida de futebol, o Jornal Nacional, a reportagem da CNN, a chuva ou sobre qualquer outra coisa. Dia desses, já cansado de opiniões banais – todo mundo tem opinião sobre tudo – escrevi no Twitter a seguinte frase: Que gente que fala!

Será que essa gente toda falando o tempo todo quer dizer alguma coisa? Não sei ao certo. Mas parece claro que esse excesso de manifestação reflete o comportamento geral das pessoas: falar, sempre. Escutar, só de vez em quando. Por isso, prefiro o silêncio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Com reflexão é melhor

Gosto de usar o twitter. Não há nada de especial nessa ferramenta, eu acho. Ela apenas faz circular informações entre pessoas que se conhecem – ou não. É coisa do tipo vapt-vupt. Pensou, colocou no ar, alguns leram e gostaram, outros e leram e ignoraram. De vez em quando surge uma conversa mais animada, mais crítica. Mas no geral, tudo é tratado assim, na superficialidade. Como manda a ferramenta, aliás. Não há como ser profundo o tempo todo com um espaço de 140 caracteres. E é aí que reside uma preocupação minha.

Não é uma preocupação daquelas que me tiram o sono. No entanto, como jornalista, gosto de textos mais profundos, mais detalhados, mais apurados. Não que a gente não consiga dizer algo em uma frase. Claro que conseguimos. Uma frase é uma ideia, apenas. E uma ideia precisa de um bom argumento que a suporte. Do contrário, não vai passar de uma boa frase, daquelas grafitadas em muros. Com 140 caracteres, não há ideia que se sustente por muito tempo.

Além disso, o hábito de usar a ferramenta acaba por acostumar o usuário – não usuários jurássicos como eu – a escrever pouco. Não me importo com a maioria. Mas me importo com os estudantes de jornalismo, por exemplo. Escrever é a essência da profissão. E escrever, para o jornalismo, não é jogar uma ideia em 140 caracteres. Escrever, para o jornalismo, é contar uma história que tenha começo, meio e fim, é orientar e informar o leitor, é fazer relações com outros fatos, comparações com outras épocas, é contextualizar aquela informação. Alguém já disse que a função do jornalismo é organizar o caos de informações que o mundo produz todos os dias. Não conseguimos fazer isso em 140 caracteres. No máximo, damos um pitaco, uma dica, uma sugestão, um elogio, uma crítica, um eu acho isso, acho aquilo.

Para resumir a reflexão que fiz até aqui, vou de 140 caracteres, então:

Uma ferramenta não substitui outra. Escrever em 140 caracteres tem lá o seu charme, sua velocidade útil. Mas escrever com reflexão é melhor.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Nós, a ralé

A única coisa que se ouve nesse autoritário horário eleitoral gratuito é promessa. Promessa de tudo quanto é tipo. As juras vão desde o aumento do número de asilos (sim, número de asilos!) até a elevação do salário mínimo para R$ 1.500,00. Para ganhar o teu voto, eles dizem qualquer coisa. Prometem qualquer coisa.

Sem falar nas manifestações oportunistas. Quando os candidatos estão numa lavoura, dizem que vão impulsionar a agricultura familiar. Se estão num hospital, prometem verbas para ampliação de leitos. Em uma universidade, garantem que têm projetos para os jovens. Quanta bobagem.

Admito que me desiludi. Durante anos, gastei saliva conversando sobre política, discuti, debati, votei. Mas não acredito mais nessa gente. Gente que, de norte a sul do país, faz piada com o dinheiro público, dinheiro que é retirado dos impostos que pagamos. Gente que dá gargalhada de pernas para o ar enquanto nós, a ralé, batalha firme acreditando num mundo melhor.

Acho que estou ficando velho. Eu não acredito em político nenhum. Por isso, voto nulo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amanhã

Depois de um longo e rigoroso inverno, volto ao blog. O tempo ruim, a falta de tempo, o excesso de tempo dedicado ao cotidiano nos obriga a fazer escolhas. As prioridades vivem sempre na confortável posição hierárquica. O que precisa mais da gente, primeiro. O que nós mesmos precisamos fica para depois.

Escrever é algo necessário pra mim. Trabalho com texto desde o final do século passado. Vivo do texto. Seja como autor. Seja como consumidor – muito mais aqui, claro. Mas a dedicação ao texto exige tempo.

Mas o tempo não dá trégua. Não para, disse Cazuza uma vez. E lá vamos nós, administrando as horas que passam ligeiras para uns, devagar para outros e simplesmente não andam para milhares. Eu vou fazendo a minha parte, tentando fazer do tempo de agora como algo que não se repetirá amanhã.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Frio

Acho que faço parte da estética do frio, expressão que até onde eu sei foi cunhada por Vitor Ramil. Não gosto de sentir frio, não gosto de sofrer com o frio. Mas gosto do frio, da sensação e dos cenários que compõem as manhãs com neblina, as noites de ruas vazias e gélidas, o vento que chacoalha a copa das árvores, a fumaça que sai das chaminés.

Na rua, o frio do Rio Grande é sombrio, úmido. Parece que o tempo custa a passar. É um ambiente que quero evitar. No entanto, a minha compreensão sobre a estética do frio ultrapassa o inverno das calçadas e das esquinas cortadas pela navalha do vento. Gosto de saber que o lado de fora está assim, gelado. Mas gosto do lado de cá da janela gotejada pelo orvalho.

Quero ir para o lado de dentro. Gosto de mexer no fogo da lareira. Demora. Primeiro, corto a facão pedaços de lenha serrados milimetricamente pela Estelinha, sob o olhar vigilante da Duda, e os transformo em gravetos. Junto-os ao nó-de-pinho e a outras toras maiores. Faço canudos de papel jornal e os disponho estrategicamente em meio à arquitetura de madeira. Risco o fósforo. Em pouco tempo, o fogo ganha corpo. Sobe a labareda agarrada ao nó-de-pinho. Já está quente agora. A sala muda de cor com a temperatura. Os cachorros se aproximam e se aquecem.

Uma sopa de capelete miúdo, como a Me gosta, queijo ralado no prato fundo, pão d’água ou sovado e um bom tinto. A toca peruana e o kefie que o Chicão lembrou de me trazer de Dubai ajudam a esquentar o corpo. Mais um cálice de vinho embala a conversa sobre o dia frio, o que fizemos e o que vamos fazer no próximo final de semana. Entre uma risada, um beijo e um carinho, a conversa já vai longe.

Embora eu adore o mar e o verão, o inverno me faz bem. O frio me une a mim mesmo e aos que estão ao meu redor. O frio e sua estética criam uma espécie de cimento entre as pessoas que querem ficar perto umas das outras. Lá por agosto, poderei estar cansado da baixa temperatura, da umidade e do excesso de roupas.

Mas aí será a hora de uma outra estética, de um outro comportamento, de um novo cimento a continuar juntando as pessoas que amamos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Com a fé não se brinca

O torcedor de futebol é um ser que, antes de tudo, precisa ter fé. Não é obrigatório que seja religioso, mas fé tem que ter. Falo do torcedor de uma forma geral. Agora, neste momento, a torcida colorada é a que mais precisa ter fé. Com Celso Roth no comando, só mesmo um milagre para o Inter conquistar a Libertadores da América. Alguém já disse que a fé move montanhas. É nisso que os colorados estão agarrados desde sábado passado, quando a direção do Inter anunciou a contratação de Roth.

Buscar Celso Roth do medíocre Vasco da Gama – que por sinal venceu de virada o Inter de Jorge Fossati neste Brasileirão – é uma prova clara de que algo estranho está ocorrendo no futebol nacional. Especialmente na casamata. Senão vejamos.

O Inter sonhou e especulou Felipão, mas nunca fez uma proposta oficial a ele. Por que? Porque nunca o quis, de fato. E não quis Felipão por vários motivos, entre eles o de que é caro demais para o padrão brasileiro e porque Scolari é gremista de carteirinha. A torcida queria Felipão mais pela mística de técnico exigente e vencedor, mas só por isso. E neste último quesito, a coisa já não é bem assim. Depois da Copa de 2002, Scolari não ganhou mais nada. Ou seja, Felipão não ergue uma taça há oito anos! Por que serviria ao Inter?

Adilson Batista foi tentado. Mas como justificar ao torcedor a contratação de um técnico caro, que traz até o roupeiro junto e que em 2006 disse que não torceria para o Inter no histórico confronto contra o Barcelona. Além de gremista, Adilson é pé-frio, porque o colorado ficou com o título de campeão mundial FIFA. Sem falar no temperamento sereno de Adilson, como mostra este vídeo. Por que serviria ao Inter?

A direção também falou com Abel Braga. Campeão da Libertadores e do Mundial com o Inter, Abel é um colorado assumido. Mas uma multa milionária teria de ser paga ao clube árabe ao qual ele está vinculado, o que inviabilizou o negócio. Mas mesmo Abel Braga, serviria? Será que apenas a mística seria suficiente para chegar ao bi da América? Que outras opções teria a direção do Inter neste momento?

Geninho, Luxemburgo, Parreira, Muricy? Os velhos e mesmos sempre de plantão? E da nova geração? Que clube, a quatro jogos de ser bicampeão da América, apostaria em um treinador emergente? Nenhum.

Celso Roth foi o que sobrou. Não ganhou nada de importante ainda, é verdade. O que não quer dizer nada. Adilson Batista também não. E quase veio a peso de ouro. O que fica evidente neste episódio é que o Brasil está carente de treinador. Não se produz técnicos no país como surgem jogadores. A fábrica de talentos só existe das quatro linhas para dentro. Na casamata, nada.

Talvez por isso, pela absoluta falta de bons treinadores, o comandante da Seleção Brasileira seja Dunga. O Inter vive hoje o que o Brasil está vivendo há algum tempo: uma crise na casamata. Mas com fé, o Brasil pode trazer o caneco da África do Sul, e o Inter conquistar seu segundo título da Libertadores da América. Pode. Mas comece a rezar desde já. Com a fé não se brinca.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dunga, o coerente

Raramente eu escrevo sobre futebol no meu blog. Mas não resisti à entrevista do Dunga no anúncio dos convocados para vestir a camisa da Seleção na Copa do Mundo da África do Sul. Assisti à verborragia dunganiana duas vezes. Na primeira, não prestei muito atenção, afinal não costumo dar muita bola à Seleção. Não torço para a Seleção Brasileira. Na outra, sim, me empenhei em descobrir um pouco a cabeça do treinador do time brasileiro. Concluí que Dunga, o coerente, não quer um time com os melhores. Quer um time de jogadores obedientes.

Já ouvi e li uma porção de coisas em relação à convocação. Não pretendo ser original na minha análise, mas o que sobrou do anúncio do Dunga foi quase nada. Para começar, não sobrou time. Não digo que os jogadores sejam ruins. Não é isso. Mas havia gente muito melhor para levar. O problema é que Dunga encontrou em uma palavra o seu esteio para tudo: coerência. Em nome da coerência, o Brasil terá um time sem alguém capaz de desequilibrar uma partida de Copa do Mundo.


Dunga adorou a palavra coerência. Para ele, ser coerente é fazer as coisas que sempre disse que ia fazer. É manter uma ideia do começo ao fim. É partir de um princípio e levar a cabo uma trajetória sem arredar um milímetro. Bonito isso. O que talvez Dunga não saiba – eu tenho certeza que ele não sabe – é que ser coerente pode não ser positivo. Ao contrário. Pode ser terrivelmente maléfico. Não gosto, por exemplo, da coerência dos terroristas, dos pedófilos, dos assassinos e dos ditadores.

A vida não é algo linear. Por mais que se possa traçar um plano detalhado sobre algo, a vida é uma sucessão de imprevistos que, não raro, forçam as pessoas a mudar de atitude, de opinião, de ideia e até de convicção. Convicção existe para ser substituída. Aplicar em si mesmo o rótulo de coerente como se isso fosse extremamente positivo, como se fosse sinônimo de verdadeiro, correto e justo, me parece grave. Porque a coerência pode andar ao lado da arrogância e da insegurança. A combinação de coerência, arrogância e insegurança tem grande chance de desaguar em autoritarismo.

Dunga, o coerente, mostrou ser um homem autoritário no anúncio da convocação da Seleção para o mundial da África do Sul. Para ele, o que mais pesou na escolha dos 23 jogadores foi o comprometimento dos eleitos. Na visão do técnico, jogar na Seleção exige, acima de tudo, comprometimento. A condição de craque fica em segundo plano. Talvez porque o próprio Dunga tenha sido um atleta mediano, no máximo, mas altamente comprometido com os times que defendeu. Dunga sabia destruir. Mas não tinha um mínimo de talento para construir. Adriano, Ronaldinho Gaúcho, Neymar, Alexandre Pato e Ganço são atletas que podem desequilibrar um jogo de futebol. Mas eles não parecem ser jogadores obedientes que Dunga tanto adora. Dunga gosta de subservientes táticos. Ele não gosta da rebeldia do improviso, da genialidade. Isso porque a genialidade nunca se dobrou e jamais se vergará ao regramento dos desprovidos de talento.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Saudade do mar

De tudo o que a natureza nos deu, o mar é a melhor de todas. O espírito se renova no mar. A cabeça se refaz. O corpo recarrega a energia. A vida se solta. Mas não é qualquer mar que sensibiliza meu espírito, faz a minha cabeça e dá vida nova ao meu corpo. Tem que ser o mar da Praia do Rosa, do Ouvidor, da Praia do Silveira, da Ferrugem, na região de Garopaba e Imbituba, e da Joaquina e do Campeche, em Florianópolis.

Com todo o respeito ao litoral gaúcho, que durante os anos da minha infância me serviram de esteio nos dias quentes e frios, o mar gaúcho é uma calamidade. Um mar que quando está claro vira manchete da edição de segunda-feira dos jornais não é um mar que se preze. Quando dependemos da exceção para sorrir é porque a regra é pesada demais.

Desde sempre ouço que o mar do Rio Grande é escuro por causa de um certo tipo de alga e também devido aos ventos fortes, especialmente os de sentido nordeste. Com a ventania, fundo arenoso é revirado e acaba por se misturar com a água já não muito clara. Seja como for, esses fenômenos acontecem aqui com frequência e me desestimulam a visitar os 640 quilômetros do litoral gaúcho.

Não lembro quando entrei no mar pampeano pela última vez. Mas faz mais de 15 anos, disso eu tenho absoluta certeza. Neste período, estive em muitos lugares. O melhor deles, no entanto, é a Praia do Rosa. Ouso dizer que o Rosa é a minha praia. O João Bento, amigo querido de tantos anos e que vive a 200 metros da Lagoa de Ibiraquera, em Imbituba, costuma dizer que o Ouvidor é a minha praia. Também é. Escrever sobre o mar, a Praia do Rosa e João Bento ajudou a amenizar a saudade do mar. Mas não é qualquer mar.

* A foto é da Praia do Silveira, em Garopaba, tirada pelo meu primo, Tiago Gutermann, surfista de primeira. A partir de agora, a imagem ficará sempre exposta no cabeçalho deste blog.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Para morrer de rir

Não lembro, mas em algum momento eu já escrevi sobre o ranking dos melhores times do mundo feito pelo instituo alemão IFFHS. Por mais que eu me esforce, não há como levar a sério o tal ranking. O que me intriga é como a grande mídia embarca nessa canoa furada. Senão, vejamos.

Veículos da aldeia já repercutem em manchete que o Inter subiu no ranking do IFFHS. Pulou do 63º lugar em 2009 para o 35º. Uau! A mesma manchete diz que o colorado passou o Grêmio, tentando colocar uma pimenta de segunda na velha e surrada rivalidade gaúcha, O tricolor, que antes ocupava a 20ª posição, agora está na 43ª. O líder é o Barcelona, seguido por Estudiantes (Argentina) e Werder Bremen (Alemanha). Depois figuram Chelsea, Manchester United (ambos da Inglaterra), Cruzeiro (Brasil), Shaktar Donetsk (Ucrânia), Arsenal (Inglaterra), Roma (Itália) e Bayern de Munique (Alemanha). Esses são os 10 primeiros.

Alguém aí pode explicar as razões pelas quais Cruzeiro e Shaktar são o sexto e o sétimo melhores times do planeta? Alguém aí poderia dar uma forcinha e apontar os grandes feitos da Roma para ocupar a posição em que está? Mas isso não é nada. No quadro dos 10 melhores times do mundo até pode haver alguma margem para discussão e "achismos". Agora, me expliquem o que vem abaixo, por favor.

O que teria feito o Velez Sarsfield, da Argentina, para estar no 24º lugar do ranking da IFFHS, na frente de times insignificantes como Liverpool e Real Madrid? Por que o glorioso FC Basel, da Suíça (isso mesmo, da Suíça!), está na frente do frágil Milan, de Ronaldinho e Pato, da tradicional Juventus, e do Grêmio, por exemplo? Não sei quais são os critérios do tal ranking, mas que é difícil de engolir, isso é. Tire você mesmo as suas conclusões. Faça você mesmo a sua análise acessando www.iffhs.de. Garanto que você vai morrer de rir. Ou de chorar.


  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Qual a importância?

Eu sou um ouvinte de rádio. Não exatamente as músicas me interessam, mas as notícias. E dou grande importância ao noticiário esportivo. Especialmente ao futebol. Por um motivo muito simples: eu gosto de futebol. Fui repórter e editor de esportes há alguns anos. Acompanho jogos pela TV, leio jornais e revistas a respeito, acesso sites especializados diariamente e coisa e tal.

Mas confesso um constrangimento ao ouvir repórteres esportivos experientes repetindo perguntas medíocres, que remontam à década de 60. Agora mesmo, enquanto escrevo este texto, ouço um programa esportivo da Rádio Gaúcha que ostenta grande audiência. Só para situá-lo, caro leitor, no próximo domingo, dia 28 de fevereiro, o Grêmio decide o primeiro turno do dificílimo campeonato gaúcho.

O repórter da Gaúcha, então, começa sua participação no programa fazendo uma surrada, fora de moda e completamente desprovida de criatividade pergunta para um jogador do Grêmio: “Qual a importância de conquistar o título do primeiro turno do Gauchão?”

Meu Deus! Quanto tempo será que o repórter levou para elaborar essa pergunta? Além de ser uma repetição inaceitável de uma pergunta infantil, um questionamento como esse é, no mínimo, um menosprezo à inteligência do ouvinte. Pense comigo, leitor. O que responderá o jogador ao ouvir “Qual a importância de conquistar o título do primeiro turno do Gauchão?”

Será que ele responderá que não tem importância alguma conquistar o título? Ou será que ele dirá que vencer o primeiro turno é apenas mais uma taça, nada demais? Sinceramente, tenho refletido muito sobre o quanto de tempo dispenso do meu dia ouvindo perguntas inteligentes como essa. Começo a pensar, seriamente, em deixar de ouvir programas esportivos. Enquanto isso, vou ficar pensando qual a importância de um time de futebol conquistar um título, se a única razão de existir de uma equipe de futebol é levantar taças.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Imaginário e ficção na reportagem

O jornalismo literário parece caminhar sobre um fio de navalha que separa a essência do gênero – a apuração dos fatos do cotidiano e o registro mais aproximado da verdade – da literatura e do romance e sua construção artificial que, sequer, pode ser considerada uma representação da realidade. No país, a grande referência foi a Revista Realidade, que nos anos 60 e 70 tratava os textos ao melhor estilo do New Journalism de Norman Mailer, Truman Capote, Gay Talese e Tom Wolfe – embora muitos autores ressaltem que jornalismo literário nada tem a ver com o modelo.

Assim como as grandes reportagens dos ícones americanos, as reportagens da Realidade também eram marcadas pelo alto grau de observação e apuração jornalística, combinadas com fatos atuais e pitadas opinativas. A revista teve seu auge em 1968 e deixou de circular em 1976. Produziu grandes matérias que se aproximavam muito da literatura e tratavam de temas polêmicos e atuais da época, como o aborto, o feminismo, a Guerra do Vietnã. Este estilo de texto criou mitos na profissão, como José Hamilton Ribeiro e Joel Silveira.

O gênero literário na imprensa no cenário nacional encontra espaço hoje em poucas publicações impressas, como as revistas Piauí e Caros Amigos. O dilema quanto ao enquadramento das funções e limites do jornalismo literário nasceu com o Novo Jornalismo e ainda hoje se mantém: um texto que utiliza recursos ficcionais – próprios da literatura, do romance – pode ser considerado jornalismo? É desta linha tênue entre a ficção e a realidade na reportagem que este ensaio pretende colocar em discussão.

Existem requisitos básicos para que se possa enquadrar um texto no gênero jornalismo literário, segundo Vitor Necchi . Para este autor, é preciso, primeiro, esclarecer que “não se trata de jornalismo de literatura, uma vez que não se ocupa da literatura como objeto” . Em artigo, Necchi cita Matinas Suzuki Jr., autor do posfácio do livro Hiroshima:

Os especialistas exigem alguns requisitos para que uma obra possa ser classificada como jornalismo literário. Ela deve ser publicada em um jornal ou revista (a partir dos anos 80, com a diminuição crescente do espaço nos jornais e revistas, alguns autores passaram a publicar reportagens diretamente na forma de livro; no Brasil, essa foi a única maneira de o jornalismo literário sobreviver). Ela precisa estar ancorada em fatos. Sua matéria-prima é o trabalho de grande apuração: muitas entrevistas, muito bate-pé de repórter, pesquisa em arquivos, exaustiva investigação de fatos, levantamento de dados (SUZUKI JR. in HERSEY, 2002, p. 170).

Necchi lembra também que a adoção do jornalismo literário como modelo não é recorrente na imprensa brasileira, como pode revelar um olhar panorâmico sobre as práticas de reportagem efetuadas no país. “Orientações mais canônicas, em especial a que preconiza a objetividade a partir do modelo da pirâmide invertida para a construção de uma notícia, vigoram em especial desde os anos 1950”, afirma Necchi . Por outro lado, no primórdio deste século que se inicia, fala-se de maneira recorrente em jornalismo literário.

Embora este gênero se apóie firmemente nas técnicas do jornalismo, como a ancoragem em fatos e a apuração sofisticada de informações, o jornalismo literário é uma escrita que se utiliza de ferramentas da literatura. Ainda de acordo com Necchi, a partir disso, este modelo jornalístico se “propõe a instigar, seduzir, provocar sensações e despertar o interesse do leitor” .

O chamado jornalismo literário foge de olhares pré-formatados e rende textos – sejam reportagens ou perfis – que surpreendem a partir de uma pauta que rompe com visões óbvias ou hegemônicas sobre a realidade. Os autores, na hora de contar histórias não-ficcionais, principalmente nas páginas de revistas, valem-se de recursos típicos da literatura. Profunda observação, imersão na história a ser contada, fartura de detalhes e descrições, texto com traços autorais, reprodução de diálogos e uso de metáforas, digressões e fluxo de consciência – a gama de recursos é ampla para que a realidade seja expressa de maneira elaborada e sob os mais variados aspectos.

Felipe Pena vai além e diz que “o jornalista literário não ignora o que aprendeu no jornalismo diário nem joga suas narrativas no lixo” . Acrescenta o autor:  “[...] os velhos e bons princípios da redação continuam extremamente importantes, como, por exemplo, a apuração rigorosa, a observação atenta, a abordagem ética e a capacidade de se expressar claramente” .

No entanto, o jornalismo literário não trabalha com a mesma lógica do hard news, ou seja, do jornalismo diário, da busca incessante pela melhor manchete e sempre pressionado pelo tempo. Esta regra é subvertida pela vertente literária. Este gênero também rompe com a tradição do lead, inventado nos Estados Unidos, e do enquadramento pelas seis perguntas básicas do texto na forma objetiva e direta: Quem/O que/Como/Onde/Quando/Por que. A escrita literária não tem uma fórmula pronta como exige o lead.

Ao contrário. Para Necchi, o jornalismo literário exige profunda observação, “imersão na história a ser contada, texto com traços autorais, reprodução de diálogos e uso de metáforas, digressões e fluxo de consciência – a gama de recursos é ampla para que a realidade seja expressa de maneira elaborada e sob os mais variados aspectos”. De tão liberto das amarras da objetividade do lead e do formato quase padrão, o jornalismo literário simplesmente desvia da impessoalidade, um dos principais pilares da estrutura da notícia.

E é aí que está o questionamento que tenho feito em minha pesquisa de doutorado. Até onde a reportagem (que trata de assuntos em conexão com a realidade) pode ir para conceder ao leitor o prazer de ler uma história real como se fosse ficção, invencionismo. Até onde o jornalismo, que vive de fatos reais, pode ser afetado com toques de fantasia?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Grêmio, uma criança indefesa


Desde meados da primeira década do século XXI, quando o Inter de Fernando Carvalho e Muricy Ramalho mudou o rumo colorado a partir da interrupção da sequência de vitórias do Grêmio em Grenais, a imprensa gaúcha mudou o tratamento em relação aos principais times do Rio Grande do Sul. Em meados dos anos 90, o Grêmio era “o” time. Guerreiro, bravo, imbatível, com alma castelhada. O Inter, um clube desorganizado e fadado ao fracasso.

Na época do time de Felipe Scolari, eu mesmo acompanhei de perto aquela equipe e o clube. Era repórter de Zero Hora no Estádio Olímpico. Todos os dias, lá estava eu cobrindo a rotina do Grêmio. Em Porto Alegre, em outros Estados do Brasil, no Exterior. O Inter, de fato, era um clube perdido em todos os aspectos. No entanto, a imprensa da época cobrava menos do grande time do Grêmio do que do medíocre time do Inter. Se algo desse errado no caminho gremista, não tinha grandes problemas. A imprensa gaúcha tratava logo de passar a mão na cabeça do seu filho mais querido. No caso do Inter, não. Mesmo capenga e míope, a obrigação maior pelo sucesso era sempre do Inter.



A partir de 2005, com o vice-campeonato brasileiro – taça roubada pelo Corinthians, nas palavras do próprio presidente do clube paulista à época –, o Inter passou a se consolidar, de fato, como um clube mais forte, mais organizado e mais competente na armação de times e na produção e venda de novos talentos para o Exterior, tornado-o uma instituição de grande potencial econômico. Este potencial levou o colorado ao título da Libertadores da América e do Mundial de Clubes da Fifa, em 2006, da Recopa em 2007, da Sul-Americana em 2008, e aos vices da Copa do Brasil e do Brasileirão, em 2009. Na sala de troféus, o Inter tem todos os títulos possíveis de ser conquistados por um clube de futebol da primeira divisão. Ninguém, em sã consciência, quer uma taça erguida dos subterrâneos da bola. Hoje, o Inter é um clube rico. O Grêmio, um clube pobre. Orçamentos aprovados em conselhos deliberativos não significam quase nada. O que vale é o dinheiro em caixa e o volume de dívidas.


Mas o tratamento que a imprensa gaúcha dá aos principais times do Estado continua o mesmo. A temporada 2010 está apenas começando, mas já li e ouvi que a obrigação por título neste ano é toda do Inter. Eu disse TODA. Não ouvi nenhuma cobrança ao Grêmio. As justificativas oportunistas para este tratamento são sempre as mesmas: “A imprensa cobra de quem pode mais, de quem tem time melhor”. Balela. Papo furado. Pura retórica para fazer dormir os desavisados. Coisa de quem continua chamando de “fiasco” uma derrota do Inter e de “tropeço” uma derrota do Grêmio. Percebam nas manchetes dos jornais do Rio Grande: o Grêmio não perde. O Grêmio tropeça.


Neste ano, o Inter, para a grande imprensa, tem a obrigação de vencer a Libertadores da América. Mas o Grêmio, estranhamente, não tem a obrigação de conquistar a Copa do Brasil. Só o Inter é obrigado a ganhar.


Se o Grêmio não está obrigado a vencer nesta temporada – como parece que nunca esteve, aliás –, a sua diretoria poderia tratar de priorizar o campeonato metropolitano de bocha em vez de gastar milhões de reais na contratação de jogadores de futebol. Se o futebol não é mais uma obrigação do Grêmio, paguem as dívidas, fechem as portas do departamento de futebol e dediquem-se à bocha. E aí, sim, a imprensa gaúcha poderá, legitimamente, seguir cobrando apenas do Inter a responsabilidade por títulos de futebol. E continuará tratando o Grêmio como um clube que parou de crescer. Como uma criança indefesa.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sonhos antigos, novos desejos

Eu sei que vou cair no clichê, mas não tem como chegar a poucas horas do fim de um ano e não tentar fazer uma reflexão. Não posso reclamar de 2009. Não estou me referindo apenas ao âmbito material, que também é muito importante. Trabalhos, lutamos, corremos eternamente atrás da máquina para alcançar objetivos na vida. E alguns são, sim, objetivos materiais. Mas não é disso que quero falar. Falo que 2009 foi um ano de grandes conquistas subjetivas.

Termino 2009 com a sensação do dever cumprido tanto do ponto de vista pessoal quanto do profissional. Neste último, apesar de todos os avanços que tive neste ano, sempre podemos crescer mais, surpreender um pouco mais. No campo pessoal, o cara que chega à virada do ano é um cara mais experiente - pode parecer óbvio, mas nem sempre amadurecemos como deveríamos de um ano para outro -, mais sensato e muito, mas muito mais centrado na minha casa, na minha família. Meu grande desafio em 2010 é justamente equalizar esses dois grandes campos do meu cotidiano: a vida profissional com a familiar. E vice-versa.

Eu tenho por hábito enfrentar desafios com alguma desenvoltura. Acabo me saindo bem. Então, o que desejo para mim mesmo é serenidade, equilíbrio, alegria, força de vontade, saúde, trabalho e luta para buscar realizações subjetivas, outras tantas materiais, necessárias para o bom andamento da rotina. Quero consolidar conquistas, concretizar sonhos antigos, inventar novos desejos. Que vocês também consigam suas vitórias em 2010.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Como é bom falar de jornalismo

Eu gosto de milhares de coisas nessa vida. Gosto do mar, do sol, do verão, de pegar minhas ondas. Gosto do inverno, do frio, de ficar bebendo vinho em frente à lareira. Gosto de ficar em casa com a minha mulher, com meu filho e meus cachorros. Gosto de futebol, do Internacional e até de assistir Vasco e ABC de Natal. Gosto de trabalhar, de fazer o que faço. Gosto de dar aula, de ensinar. Gosto de ler, de aprender e de estudar. Gosto de tocar conversa fiada com os amigos, das risadas de mesa de bar.

Mas quase nada das coisas que gosto fariam sentido se não gostasse da minha profissão. Adoro ser jornalista e trabalhar com jornalismo. É o que faço todos os dias desde 1991.
Por isso, falar de jornalismo pra mim é falar do mundo vibrante das palavras, do texto, da vida cotidiana, do imaginário, do registro dos fatos que nos anos seguintes servirá, certamente, como registro histórico.

Nessa semana tive uma das experiências mais marcantes da minha trajetória de jornalista, que nasceu na redação do NH, em Novo Hamburgo, passou pelo jornal Zero Hora, por Brasília, pelo jornalismo online, dezenas de viagens pelo Brasil e no Exterior e chega, neste momento, ao ensino de futuros jornalistas na Unisinos e na PUCRS. Na noite do dia 10 de novembro, compartilhei um debate rico e leve com o jornalista, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, Juremir Machado da Silva, sobre um gênio do jornalismo mundial, Tom Wolfe.

Wolfe é o ilustre convidado do Fronteiras Braskem do Pensamento no dia 16 de novembro, na UFRGS. Por isso, fui convidado, junto com Juremir, para fazer uma espécie de apresentação do pensamento de Tom Wolfe a uma seleta plateia, muitos dos quais deverão estar na palestra do mestre do New Journalism. Minha participação neste evento se deveu, em grande medida, porque minha tese de doutorado na PUCRS é justamente sobre imaginário e ficção na reportagem, um mergulho no jornalismo literário, sob orientação cirúrgica do Juremir.

A criação do Novo Jornalismo mexeu com o jornalismo padrão que se fazia naqueles últimos anos da década de 50, começo dos 60. O jornalismo padrão, bege, segundo Tom Wolfe, cansava o leitor pela absoluta falta de criatividade, com textos sonolentos e óbvios. O jornalismo, na época, se preocupava em mostrar quem matou quem e onde. Mas quase nunca queria saber como e porquê o crime havia ocorrido. Esta era a senha para a produção de reportagens profundas, detalhistas. Esta era a senha para ir além, muito além do que os outros já tinham ido.

O Novo Jornalismo surgiu com um texto fortemente amparado em recursos da literatura, com descrições detalhadas das cenas, transcrição de diálogos, observação sobre o status do entrevistado (ou dos envolvidos com o assunto), como a roupa, o jeito, as expressões, o gesto, o cheiro e o ambiente em que os fatos ocorreram. A intenção era pegar o leitor pela mão e colocá-lo na cena do fato.

Com isso, o Novo Jornalismo conseguiu, com grande aceitação do público e uma boa dose de repúdio por parte dos romancistas, estabelecer um texto não-ficcional com a emoção típica dos romances. Grandes reportagens viraram livros geniais, como A Sangre Frio, de Truman Capote, Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe, Fama e Anonimato, de Gay Talese. Os romances de não-ficção mudaram completamente o jeito de fazer jornalismo.

Claro que no final das contas, o que vale é o texto. O que existe em jornalismo é texto ruim e texto bom. No Novo Jornalismo, isso fica latente. As virtudes e os defeitos saltam aos olhos do leitor. Por isso, quem se aventura no jornalismo literário precisa saber o que está fazendo. Não é um bicho de sete cabeças. Mas também não é um bicho de uma cabeça só.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O patrono da alegria

O patrono está feliz. Candidato ao cargo de patrono da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre por cerca de uma década, o jornalista e escritor Carlos Urbim chegou lá este ano. Em um encontro restrito a amigos na noite de quarta-feira, 7, em um bar movimentado da Cidade Baixa, o guri daltônico de Santana do Livramento não escondeu o contentamento de ter sido eleito o personagem principal da maior festa cultural do Rio Grande do Sul.

Urbim é uma das pessoas mais pontuais que conheço. O encontro estava marcado para as 21h. Cheguei às 21h10min. Na frente do bar, o patrono. Em pé, de calça, camisa, blusão e tênis pretos e o inconfundível cabelo grisalho moldado levemente por gel, Urbim segurava um quase proibitivo cigarro na mão direita. Na esquerda, uma pequena sacola plástica com dois de seus últimos trabalhos de presente para mim (Zamprogna: a história da imigração italiana e a industrialização do Rio Grande do Sul, Via Norte, 2008) e para meu filho (Admissão ao Ginásio, Escritos, 2008). “Que bom te ver. Vamos entrar e fazer uma homenagem ao jornalismo rio-grandense”, disse, sorrindo, o autor de Saco de brinquedos, com a voz de trovão e entonação infanto-juvenil.

Membro desde o ano passado da Academia Rio-grandense de Letras, Carlos Urbim tem consciência de que sua eleição para patrono não deixa de ser uma espécie de oxigenação no restrito mundo das letras. “Eu escrevo livros infantis. Cheguei até aqui escrevendo para crianças. Isso é surpreendente”, observa, distribuindo com cuidado o molho de pimenta sobre o bolinho de bacalhau fumegante. A escolha de Urbim também representa a opção pela informalidade em meio ao universo conservador, formal e sisudo das academias de letras e das câmaras de livros. Urbim quer que a velha feira da Praça da Alfândega seja uma feira renovada por um patrono que representa a felicidade espontânea do público infantil.

Chegar a patrono da feira numa disputa com Airton Ortiz, Juremir Machado da Silva, Regina Zilberman e Luis Augusto Fischer deixaria qualquer um, de fato, orgulhoso. Mas Urbim não sente apenas orgulho. Ele tem gratidão. E muita. Por isso, quando tiver de fazer seu primeiro discurso na Praça da Alfândega, Urbim já avisou que a lista de agradecimentos será longa. “Vai ser uma lista telefônica. Não quero deixar ninguém de fora. Pretendo agradecer publicamente a todas as pessoas que trabalharam comigo nesses anos todos, inclusive muitos dos meus companheiros de redação. Sou escritor, mas sou jornalista. Eu me sinto um representante do jornalismo gaúcho neste momento”.

Antes do primeiro gole de uma gelada Pilsen uruguaia, erguemos o copo para o brinde. E Urbim soltou novamente o vozeirão. “Vou ser o patrono da alegria. Vou levar o sorriso à Praça da Alfândega”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Às vezes cansa

Estou cansado dos discursos do Lula, do Jornal Nacional, dos programas esportivos do rádio gaúcho, dos comentaristas tradicionais. Cansei dos jornais que assino. Estou cansado das novas velhas notícias das editorias de política, dos escândalos do Congresso, da vida fácil dos senadores, da corrupção nacional.

Estou cansado da rotina da mídia nacional, do Dunga e de sua seleção. Cansei da CBF e de seus interesses malandros e obscuros. Estou cansado da narração do Paulo Brito, da RBSTV, e do malabarismo circense do Galvão Bueno. Estou cansado de ver tanta bobagem no noticiário esportivo.

Estou cansado da poluição ambiental, da camada de ozônio, do CO2. Cansei do oportunismo ecológico e da conversa fiada em favor do verde. Estou cansado da discussão banal e leviana sobre o pré-sal. Estou cansado do pré-sal e do discurso ideológico que vem de brinde. Estou cansado do atraso social, econômico, educacional da América Latina. Cansei do papo-furado do Hugo Chávez e do Evo Morales. Cansei do bolsa-família e do vale-refeição.

Estou cansado do cinema nacional e dos filmes da TV aberta. Cansei das opiniões das celebridades, que sempre têm algo inteligente a dizer. Estou cansado do mundo fútil que gravita em torno do narcisismo televisivo e cinematográfico.

Não tenho Orkut, mas já cansei do Orkut. Tenho twitter, mas não uso. Estou cansado do celular que faz foto, que filma, que toca FM e que, surpreendentemente, também serve para falar com alguém. Estou cansado do controle remoto.

Meu cansaço é cíclico. Não é permanente. É que nem sempre estou disposto, nem sempre estou a fim de tudo o que o mundo me oferece ou me obriga a aceitar. Hoje estou cansado. Não há motivo especial algum, nada grave. É que às vezes, cansa. Só isso. Eu canso. Às vezes.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Vale tudo

Cheguei a ficar emocionado com a notícia. Sério! A partir de agora, o povo brasileiro terá acesso à cultura. Anunciado com alarde pelo governo federal, o Vale-cultura promete colocar o pobre no cinema, no teatro, nos concertos, nas exposições de artes. O governo Lula vai bem. Encontrou na distribuição do vale o caminho das pedras. Depois do bolsa-família, a ideia é que os R$ 50,00 do VC sirvam como ferramenta de inclusão de trabalhadores de baixa renda no circuito cultural do país.

No lançamento do projeto, o presidente da República estava eufórico. Cheio de bom humor e largando as tradicionais piadinhas – foi o que li na edição online de O Globo em 23 de julho. Segundo a proposta, com este dinheiro o beneficiário poderá comprar ingressos para cinema, teatro, shows, livros, CDs (vale CD pirata?) e eventos culturais de toda ordem. Mas acho que ainda vai faltar grana para ver e ouvir Caetano Veloso, Maria Rita e outros nomes da MPB...

Sinto no ar um cheiro forte de aprovação da sociedade brasileira em relação à instituição do Vale-cultura – que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso Nacional, é bom que se diga – na rotina nacional. Ouço coisas do tipo “até que enfim pensaram na cultura”; “show de bola, o povo precisa de cultura”; “já estava na hora da inclusão cultural”. A verdade não existe, sabemos. A verdade é uma versão bem-sucedida sobre um fato. É um ponto de vista em relação a alguma coisa. É alguma coisa vista de um ponto de vista. Então, visto assim, por este ângulo, sim, devo concordar que a ideia é boa.

Eu disse ‘a ideia é boa’. A forma como esta ideia será colocada em prática é que são elas. Não concordo com o VC, assim como não concordo com o vale-transporte, o vale-refeição, o vale-alimentação, o vale-gás, o bolsa-família. A gente não quer só comida, seu presidente. A gente quer diversão e arte, sim, como dizem os Titãs. Mas queremos tudo isso com a dignidade do salário, presidente. O vale é indigno. Enquanto o brasileiro precisar de todos esses vales pra viver, presidente, o Brasil continuará sendo o país da esmola e do assistencialismo. Continuará sendo um país sem salário, um país do vale-tudo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Vida de ministro

Uma grande curiosidade toma conta de mim neste momento. O que o nobre ministro Gilmar Mendes faz nas horas vagas? O que faz um homem tão culto, letrado, depois que tira o peso da toga dos ombros ao final de sua, imagino, árdua labuta diária? Será que Mendes faz um happy hour com os amigos ministros? Será que ele tem amigos? Será que toma um chopinho, come churrasquinho no espeto – daqueles vendidos em estacionamentos de muitos supermercados de Brasília? Será que ele assiste a alguma partida de futebol na TV? Será que ele curte uma novela? Será que ele gosta da Norminha em cena?

Gostaria de saber como é a rotina de um homem tão nobre e poderoso. Como ele se veste em um sábado pela manhã, sem os compromissos tão exaustivos de ministro do Supremo? Será que ele veste bermuda de sarja e camisa pólo? Bem, disso eu não tenho dúvida. Gente da estirpe de Mendes, nobres da corte, sempre vestem bermuda de sarja e camisa pólo. Assim eles se acham descontraídos e elegantes ao mesmo tempo. Ficam, digamos, brega-chiques. Será que o ministro que admira cozinheiros sabe cozinhar? Será que ele reúne amigos para uma paella preparada por ele mesmo? Nossa, imaginem ser servido pelo todo-poderoso do STF... Que luxo, diria um amigo meu.

Essas perguntas rondam a minha cabeça desde que Gilmar Mendes se tornou o grande porta-voz de toga para declarar que o diploma de jornalista não precisa mais ser exigido para o exercício da profissão. Ao justificar seu voto a favor da martelada sobre o diploma, Mendes fez comparações tão infantis que me recuso a ordená-las aqui. Mas algo me chama a atenção. Ao comparar a necessidade de diploma para o exercício do jornalismo com a atividade de um cozinheiro, fiquei preocupado com o ministro. Por alguns instantes, deixei de me preocupar sobre como seria a vida banal e ordinária de Mendes. Passei a me preocupar com sua saúde! Será que nosso ministro está bem?

Será que ele está conseguindo fazer coisas mundanas, como julgar o futuro da profissão dos outros? Será que ele está mental e fisicamente saudável para compreender o que representa um diploma na vida de um universitário? Na vida de um jornalista formado, qualificado, capacitado, habilitado? Temo que não. Gilmar Mendes não parece bem. Dizem que ele sequer anda lendo jornais. Dizem que há dias não assiste a nenhum telejornal. Mas tudo isso pode ser fofoca de jornalista, intriga contra o pobre do ministro. Neste emaranhado de dúvidas que me atordoam, uma certeza eu tenho: Mendes pode até ter deixado de ler jornais, mas continua lendo a Veja. Religiosamente.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O tempo

Acordei cedo, pensando na falta de tempo. E me dei conta que marcamos a vida pelo tempo. O tempo primitivo, das cavernas. O tempo da pedra, do fogo. Das guerras sangrentas, das cidades muradas, das cruzadas. Um tempo que parecia não ter fim. O tempo em que os deuses eram muitos. Tempo da inquisição em nome de um único deus. Tempo de buscar um novo mundo, da opressão sob o manto da colonização de povos tropicais e nus. Tempo de escravidão.

Tempo do lampião, da energia elétrica, do trem, da indústria, do capital. Tempo de dominações armadas, da força bélica de algumas nações sobre outras – este tempo nunca passa. Tempo de duas grandes guerras. De pensar uma sociedade socialista, comunista. Tempo do medo permanente de uma guerra fria. Tempo de conhecer o espaço, o universo, a galáxia. Tempo de controlar o incontrolável, a via láctea.

Tempo de crescimento econômico para alguns. De estagnação para outros. Tempo de espalhar ideologias, apagar outras. De tempos em tempos aparece alguém que logo é assassinado. O tempo se encarrega de carregar o morto ao patamar dos mitos. Tempo de trabalho pesado, de jornadas estafantes em busca da sobrevivência rural e urbana. Tempo de perder emprego e de buscar o ganho informal. Tempo de fartura. Tempo de fome. Tempo de crise do social. Tempo de crise do capital.

A mídia conta o tempo que a História só conta muito tempo depois. Tempo da imprensa contar tudo – quando a ela interessa – e de esconder o que pode – quando a ela também interessa. Tempo de literatura, de leitura. O jornal faz o tempo e avisa como será o tempo amanhã. Tempo de tecnologia. Tempo das ondas do rádio. É tempo de televisão.

O fascínio da tecnologia deixa o tempo para trás. Tudo é muito apressado para quem acha que controla o tempo. Tudo é preguiçoso para quem não percebe o que se passa ao seu redor. O tempo de hoje é apenas mais um tempo. Um tempo veloz e repleto de informações. O tempo virtual que nos move pouco se importa sobre o que, de fato, nos comove. O tempo segue firme o seu destino de sempre. Até que nos leve de volta ao tempo primitivo, das cavernas. O tempo da pedra, do fogo. Das guerras sangrentas, das cidades muradas, das cruzadas. Ao tempo que parece não ter fim.