Gosto de ir ao supermercado. Quase sempre encontro alguém que não vejo há algum tempo. Dia desses topei com um amigo da faculdade de Jornalismo, o Renato, em um daqueles corredores gelados das comidas prontas. Lembrei da paixão do meu amigo pelo Grêmio e perguntei o quanto ele estava ansioso pelo retorno do time à Libertadores deste ano, onde ele iria assistir aos jogos da equipe e coisa e tal. Renato, que estava sorridente, ficou sério de repente.
Não entendi aquela reação e perguntei o que havia acontecido. Com jeito de conformado, me disse que não iria assistir aos jogos pela televisão. Não assistiria a nenhum jogo este ano. Logo imaginei que ele não tivesse TV a cabo. Mas rapidamente me veio à cabeça a imagem de torcedores assistindo a jogos que só passam pelo cabo nos bares, quando a galera une o útil ao agradável: futebol, cerveja, petiscos e os amigos em volta de uma mesa. Mas ele foi seco, direto. Não iria assistir às partidas porque a mulher dele não queria.
– Como assim? – perguntei.
– Você sabe, as mulheres não gostam de futebol – disse ele. – Elas acreditam que os homens as desprezam quando sentam diante da televisão....
Resolvi trocar de assunto e, em pouco tempo, nos despedimos. Fiquei pensando na dor do meu amigo de faculdade. Pensei como uma mulher pode ser assim, tão perversa. Como ela pode privar meu amigo de assistir a uma partida de futebol na TV que dura, tão somente, noventa minutos? Na volta para casa, enquanto dirigia, refleti sobre o assunto. Por que o futebol incomoda tanto as mulheres? Não todas, claro. Conheço várias que adoram uma partida de futebol. A Me, por exemplo, gosta e entende de futebol. Nos finais de semana, assistimos a jogos na TV e vamos ao Beira-Rio. Volta e meia, em casa ou em qualquer lugar, conversamos sobre o mundo da bola, as contratações do Inter, a situação do Santos, o humor do Muricy e coisa e tal. Aliás, conheço mulheres que jogariam melhor que o gordo do Ronaldo Fenômeno, contratado pelo Corinthians para se tornar, em fim de carreira, a alegria dos zagueiros brasileiros. Mas muitas delas, de fato, não são atraídas pelo futebol. Mais que isso: elas têm ojeriza a futebol....
Depois de muito pensar, percebi que não existe preconceito das mulheres em relação ao futebol, o esporte. Isso não existe. Tanto que em época de Copa do Mundo as minhas colegas de trabalho são as primeiras a organizarem pipocas e salgadinhos para que o pessoal assista aos jogos da Seleção, quando esses ocorrem em horário de expediente por causa do fuso horário e talicoisa. Portanto, as mulheres não odeiam o futebol. O que elas sentem é ciúme.
As mulheres nutrem um ciúme mortal pelo futebol. Talvez porque as mulheres, de uma maneira geral, querem a atenção só para elas. Exclusivamente para elas. As mulheres só admitem dividir o seu amado com os filhos. E olhe lá! Às vezes, nem isso. Dividir o namorado, o marido ou o amante com bichos de estimação, raramente. Com os amigos, uma vez na vida e outra na morte. De preferência, na morte. Mas elas não suportam compartilhar os homens com o futebol. Isso, nunca!
Esse sentimento feminino é ainda mais potencializado quando o vivente tem assinatura de TV a cabo. Sim, porque a TV aberta transmite futebol apenas duas vezes por semana, às quartas-feiras à noite e aos domingos à tarde, para atrapalhar aquela maravilha de programa que é o Domingão do Faustão. Quem tem canais a cabo e gosta de futebol vive no paraíso. É futebol todos os dias e em qualquer horário. Campeonato da Inglaterra, da Alemanha, da França, da Itália, da Espanha, da Ucrânia e da Malásia. Tem os campeonatos estaduais do Brasil, o Paulistão, o Cariocão, o Gauchão, tudo no ÃO. A mulher que vive com alguém que gosta de futebol e tem TV a cabo corre sério risco de pedir divórcio em junho, no meio da temporada, antes de o time do marido perder jogadores na janela de agosto para o milionário futebol árabe.
Alguns especialistas dizem que o ciúme – este sentimento que já destruiu milhões de relacionamentos ao redor do globo – pode ser apenas insegurança. Um medo de perder o amor a que tanto se dedica. As mulheres hão de dizer que se elas não gostam de futebol, os homens empatam esse jogo porque odeiam novelas. Concordo, em parte. Um outro amigo meu só sai de casa à noite depois da novela das 8. Que já é novela das 9 há muito tempo. Mas até onde eu consigo perceber, os homens não exercem esse ciúme abusivo em relação à novela, como as mulheres praticam em relação ao futebol. E olha que a TV aberta deve passar umas 48 novelas por dia durante seis dias por semana...
Não saberia dizer se este pequeno entrave conjugal em que meu amigo de faculdade está metido tem solução imediata. Mas preciso dizer que o futebol e a novela são instituições sociais vivas, que fazem parte do imaginário social enaltecidos pela mídia. O colunista do jornal Zero Hora e meu querido amigo David Coimbra, por exemplo, diz que o futebol é uma representação da sociedade. Pode ser um exagero, mas visto de muitos pontos de vista, representa mesmo. No estádio ou no gramado estão presentes as disputas de poder, as tensões, a vitória e a derrota. A novela também exerce essa representação com histórias que envolvem a ganância, a traição, as paixões, o mocinho e o vilão. Vivemos tudo isso no nosso cotidiano e quase não nos damos conta. A sociedade se vê, diariamente, nas paixões do futebol e nas tramas das novelas. E isso não é bom nem ruim. É apenas uma pequena parte do nosso enredo social.